Povo Paiter Suruí: Como o Empreendedorismo Indígena Transforma Café em Símbolo de Resistência e Autonomia
Na divisa entre Rondônia e Mato Grosso, a Terra Indígena Sete de Setembro se destaca como uma mancha verde resistente ao desmatamento da região. Ali vivem os Paiter Suruí, que significa “Gente de verdade” em sua língua nativa, um povo que transformou uma história de invasão em exemplo inspirador de empreendedorismo indígena sustentável.
Com pouco mais de 1.200 pessoas distribuídas em cerca de 40 aldeias dentro de quase 250 mil hectares de floresta protegida, os Paiter Suruí protagonizam uma das mais interessantes experiências de economia indígena do Brasil, baseada na ressignificação, inovação e respeito ancestral à natureza.
Da Invasão à Ressignificação: O Café como Ferramenta de Autonomia
O primeiro contato oficial dos Paiter com não indígenas ocorreu em 1969, durante o período militar marcado pelo slogan “integrar para não entregar”. Quando retomaram parte de seu território na década de 1970, encontraram cafezais plantados pelos colonos que haviam invadido suas terras.
A decisão do que fazer com essas plantações dividiu a comunidade. Como relata Celesty Suruí, primeira barista indígena do Brasil: “Adotar o café foi difícil. Uma parte das lideranças era contra, pois era símbolo de uma história de genocídio. Já outra parte viu ali algo especial, que poderia manter”.
Inicialmente, os mais velhos confundiam o fruto do café com o sarikab, uma fruta nativa da floresta. Essa confusão ancestral acabou se tornando o nome da marca: Café Sarikab, batizando o produto com uma palavra que conecta passado e presente.
Agricultura Sustentável em Sistemas Agroflorestais
Atualmente, cerca de 176 agricultores Paiter Suruí de 35 aldeias trabalham com o cultivo de café, produzindo aproximadamente 1.600 sacas por safra. O diferencial está no método: os cafezais crescem dentro de sistemas agroflorestais, onde diferentes espécies dividem o mesmo solo, respeitando os ciclos da terra e evitando o desmatamento.
A parceria com a indústria Três Corações, através do Projeto Tribos, garante demanda estável e suporte logístico, com 100% da produção voltada para microlotes especiais. Em 2022, o café indígena recebeu reconhecimento oficial, sendo classificado como “especial” devido às suas notas complexas de chocolate, castanhas e corpo cremoso.
Turismo de Base Comunitária: O Complexo Yabnaby
O Complexo Yabnaby representa uma inovadora iniciativa de turismo de base comunitária dentro da Terra Indígena. Mais do que uma fonte de renda, o projeto funciona como “guarda-chuva” de desenvolvimento territorial, conectando visitantes com a realidade da vida sustentável na floresta.
Como explica Almir Suruí, lideranÇa do território: “No turismo estão educação, saúde, desenvolvimento, geopolítica, cultura, tecnologia e meio ambiente. No final, isso gera o fortalecimento de geração de renda para a nossa comunidade”.
Em 2024, o Yabnaby recebeu cerca de 240 turistas, oferecendo experiências que vão desde o conhecimento dos sistemas agroflorestais até vivências culturais autênticas. O projeto recebeu investimento de R$ 522 mil através do Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio) e conta com apoio do Sebrae para capacitação em hospitalidade e roteirização.
Comunicação Própria: O Coletivo Audiovisual Lakapoy
Cansados de terem suas histórias contadas por olhares externos, jovens Paiter criaram o coletivo audiovisual Lakapoy. A iniciativa nasceu da necessidade de registrar o próprio povo com o próprio olhar, produzindo conteúdos principalmente em tupi-mondé, sua língua nativa.
“O coletivo nasceu a partir de uma necessidade de registrar o nosso povo, com o nosso olhar, porque muita coisa foi se perdendo desde o contato com os brancos”, explica Ubiratan Suruí, um dos fundadores.
Atualmente com cinco integrantes fixos, o Lakapoy atua como instrumento de memória e educação visual, participando de produções em parceria com jornalistas e realizando projetos próprios como exposições fotográficas.
Perspectivas Futuras: Expansão Sustentável
Os próximos passos incluem a estruturação de uma fábrica de chocolate dentro do território, aproveitando o cultivo de cacau em expansão nas agroflorestas. O turismo planeja ampliar sua capacidade de hospedagem, enquanto o coletivo audiovisual pretende criar uma rede de comunicação que abranja as 36 aldeias do território.
Um novo projeto de carbono, desta vez 100% gerido pelos próprios Suruí, está em desenvolvimento, refletindo a experiência acumulada e o desejo de total independência na gestão de seus recursos naturais.
Lições de Sustentabilidade e Resistência
A experiência dos Paiter Suruí demonstra como é possível transformar símbolos de invasão em ferramentas de autonomia, sem abrir mão da identidade cultural e do respeito à natureza. Como afirma Almir Suruí: “É isso que a gente quer mostrar para o mundo, que é possível produzir com responsabilidade e consciência”.
O empreendedorismo indígena praticado pelos Paiter vai além da geração de renda: representa uma forma de resistência cultural, preservação ambiental e construção de futuro que pode inspirar comunidades ao redor do mundo.
Fonte: Agência Sebrae de Notícias
